sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Eu preciso arrancar do meu corpo
certas marcas que me afligem
jogar para longe pedaços que não são meus
despedaçar com socos furiosos
com lança-chamas modernos
partes de mim que me despedaçam...
Odiar o nascer do dia
desejar a morte de meus pais
assobiar em braile uma canção qualquer...
preciso me libertar das minhas asas
das fadas verdes e azuis
do ópio do povo
da alienante filosofia
preciso me perder
preciso respirar a minha poesia
e viver pobre e só
cada dia sempre assim
perdido
pra sempre
sem destino
sem laços
preciso de nada mais precisar
esquecer por um segundo tudo que não lembro
adoecer e falecer
andar nu nos meus sonhos
chorando por algo que não virá
Eu só
nada mais a me fazer sorrir
a me fazer chorar de alegria
a me desesperar de esperança
a casa inteira vazia
solidão
que imenso nada você me dá
esse sentimento de inutilidade
esse dor de amar mas não ser amado
é tudo tão triste
dói muito
vontade de morrer pra sempre
de deitar
fechar os olhos e não acordar mais
viver assim
como espetáculo mudo para os outros
sem ter quem te entenda
sem ter com quem falar
ficar preso em si
coisas travadas na língua
vontade de gritar que você é a pessoa mais infeliz do mundo
que Deus é um grande filho da puta
bastardo
infiel
e que ao invés de nos contar tudo
fica de joguinho
infantilmente
guardando todos os segredos pra si
e vendo a gente se explodindo
se matando
se estrupando nas feiras de sábado
era pra ser poesia
mas acho que virou apenas um grito
dos que mais doem
dos sinceros
dos que a gente sente no mais profundo da alma
dos que marcam a pele com uma brasa eterna
eu só queria a felicidade
não peço dinheiro
fama, riquezas, bens materiais
só quero meu amorzinho
uma casa minha
meu sorriso
felicidade
mas o grito ecoa pela noite
acabou sendo apenas o uivo de uma mente perturbada
na madrugada fria e escura
desejo me encontrar
por aí
me perdi em mim mesmo
e infelizmente ninguém pode hoje me ajudar
Minha dor é helicóptero, beija-flor
Minha alegria não é mais ir ao Mc'Donalds
Nem soltar pipa da laje
Ou sacanear meus pais
Não vou mais assistir um jogo de futebol, de cartas marcadas, dados viciados
Não choro mais quando morre alguém na novela
Não assisto mais a bíblia
Nem leio o jornal da tv
Não como mais a comida tóxica das indústrias químicas
Não fujo mais de meus preconceitos
Não uso mais calças jeans, apertadas, rasgadas, azuis só pra imitar alguém
Agora faço o que quero
Ando nu porque quero
Salvo a natureza só porque eles não querem
Insisto em que a terra é o centro do universo só de sacanagem
Brinco com granadas pra sentir pavor
Tenho medo do escuro, de cachorro, de pessoas mais inteligentes que eu
De bandido, de abelha
Não sei fazer nada direito
Sou preguiçoso demais pra aceitar que devo trabalhar
E ser mais um imbecil proletário
Que dá a bunda ao patrão
Que vende a alma ao diabo em dez vezes sem juros no carnê de mercadorias do baú
Não aguento levantar sozinho uma cadeira
Claro que fico ofendido quando você me contradiz
E mostra na frente de todo mundo que eu sou um merda
Ou quando você termina o romance comigo
Sinto raiva, te odeio e te amo
Sei que esse poema é chato
Mas você o leu porque quiz
Agora me deixe em paz verme
E leia isso pros seus pais se tiver coragem
Minha vida é mais estranha que um viciado se drogando porque ama a vida
Azeda contradição
Eu rio rio rio rio rio porque não sou feliz

Favela

Em cada copo derretida vela
Há paz hoje em dia na favela
Mesmo a paz fingida e morta
Estendida e trancada atrás da porta
E fugitiva da esperança
Pois todos sabem que agora infeliz é a criança
Que quer brincar e não pode
O povo pobre sempre se fode
Por que quem deve ajudar não faz caso
Ficam com suas bundas podres sentadas no vaso
Pensando onde vão almoçar amanhã
Enquanto o pobre descalço se contamina
Morre de fome, de sede, de dengue sem vitamina
Enquanto o rico no google se procura
O pobre, ignorante e sujo vê que se não for bandido safado não tem cura
O tempo pára
Pra ver essa canção
Terminar como todas as outras
Num final babaca sem coração
Mas vou dizer por último que o que se fez tá feito
E se não tivermos o mesmo direito
Matar é morrer e só vão causar o trágico defeito
Viva a burrice dos homens
ainda vive em mim narcísica esperança
de ver o mundo todo olhando calma e serenamente pra si mesmo
são só palavras
nada vai mudar
talvez daqui a mil anos leiam ou ouçam essas palavra
se pensem que havia algo de bom em ser ruim
tanto quanto versos ensolarados pelo sangue
tristes milícias,
comandos manchados de sangue,
polícia ladra

Só pra nós dois

amor meu doce amor
te sinto como uma leve gota de orvalho a tocar meus pêlos
a tocar meus olhos como uma gota ardente de limão
que me traz dor e prazer
te sinto
teus lábios carnudos
tua lingua animal a roçar na minha, a se perder em minha boca húmida
na tua boca macia e quente
e sinto teu seio a encostar em mim
sedoso, pêssego em minhas mãos
tudo em você é prazer
deleite
calor
só assim me sinto liberto, perdido no amor
nos milhões de orgasmos que precedem o orgasmo em si
o nada que se segue também é amor
é a morte que lança a semente de uma nova vida
que me faz pensar no que acabamos de fazer meu doce amor
e de saber que somos tão frágeis
tão crianças
inocentes a brincar com nossos corpos entrelaçados
a achar graça em dormir e se agarrar e se dobrar em delírio uns sobre os outros
tentação
deus deve amar fazer amor
com a natureza
com os homens
com as mulheres
porque deus não tem sexo
e por isso não ama
e por isso nos entende
e por isso não nos perdoa e não nos vê culpados de nada
afinal não somos criaturas racionais
ou que saibamos diferenciar o certo do errado
somos apenas bestas loucas
uma querendo tirar o máximo de prazer e de alegria das outras
se eu estiver sorrindo tudo bem
e se você estiver feliz ou não
pouco me cabe
pouco me atinge
apenas se eu chegar a pensar que sou você é que me aflijo
e sofro na tua tristeza
e choro tuas lágrimas
por isso vem comigo amor
vamos caminhar no sol
andar por sendas iluminadas
passar as mãos uns nos outros
acariciar as flores da primavera
roçar nossos corpos nus
correr como crianças bobas por todo esse èden cândido e só nosso
vamos esquecer as responsabilidades
brincar um no corpo do outro
deus nos escolheu
vamos entrar nesse caminho colorido pelo arco-íris
dar a volta no Universo
caminhar até o sol
até o sol
nos perder por aí
e quem sabe nos encontrar em outra encarnação
em outro mundo
em outro lugar
nós dois
pai e mãe
irmãos puros
nós dois
amigos, amantes, eternos namorados
vamos entrar um no corpo do outro
jogar a chave fora
nos trancar no livre espaço do amor
até nunca mais mundo cruel e mesquinho
agora sou só eu e você
a vida, os sonhos, o Universo inteiro
só pra nós dois

Sangue de Coca-Cola

Eu não queria te escrever
mas você me forçou
me tirou as opções
invadiu minha alma como sempre faz
e me roubou a vontade própria
o livre-arbítrio
me coagiu a agir assim, a te escrever essas palavras monótonas
vagas, imprevistas, imprescindíveis, contraditórias na sua certeza
e eu como sempre teu escravo mais servil e bobo
mais dominado e maleável
sou teu escravo e tu sabes que a todo momento domina meu punho
e faz dele teu brinquedo
transforma carne, ossos e sangue em mediúnica chatice
e me põe em tal transe, me deixa tal qual numa transa, assim, suado e aflito
num misto de prazer e agonia
felicidade, torpor, gemidos e gritos da alma
numa folha branca
sem conteúdo nem continente americano...
folha em branco tal qual a vida
que aguarda o momento de ser preenchida com futilidades
erros de português
de gramática, sintaxe
erros que porém fazem mais sentido que todo um dicionário frio e perfeccionista
erros que me tornam humano, mas que clichê que sou!
patético e passional
E ainda olho com os olhos arregalados para a pessoa que amo
e ela ali é a única que não percebe, me despreza que sei
em meio a chuva de palavras e futilidades escrevo esse poema
que não tem nada demais
cotidiano e banal
no meio de pessoas cegas e em estado de sono profundo
e sei que sou mais um
é triste saber disso
pelo menos é algo que sei
e me torno então, diferente de alguém?
claro que não
vou lá assistir o noticiário
tomar coca-cola
tomar banho
escovar os dentes
assumir minha posição de soldado, na linha de frente dos palavrões
ser mais um macaco burguês em meio a pessoas tão idiotas quanto eu
que vontade louca de gritar
foda-se tudo isso!!!!!!!!!

A jovem

Eu queria ser um poema
Uma poesia qualquer de um adolescente triste e solitário
Queira ser as palavras que saem livres de seu coração
Sem interrupções
Sem pudor, sem medo, sem censura
As palavras nuas e indecentes de um coração desesperado
Cheio de sonhos e ilusões
Queria ser a poesia cálida
Morta-viva, sem explicação
Sem dicionário
Contraditória e imbecil em todos os seus versos
A poesia livre, libertina, corajosa
e Sem nenhum crítico invejoso babaca pra criticar
A poesia de um segundo
Dos sentimentos mais profundos e escondidos
Dos desejos sexuais e dos sonhos metafísicos
Dos dias de calor e frios
Da solidão e da aventura
Do inesperado e do rotineiro
Do ódio pelo amigo
E do amor pelos rivais mais desleais e nojentos
Queria ser o poema que nasce num átimo de segundo
Mas que apreende toda a dor de ser um nada em meio a um mundo sujo, desleal, mesquinho, capitalista e aos cacos
Queria ser acima de tudo a poesia do amor não correspondido
Daquele amor que a gente pensava que ia dar certo
Daquele amor que a gente jurava ser perfeito
Mas que no final nos deixa sempre decepcionados
Arrasados
Sem vontade de viver
Eu queria ser a poesia solta de correntes
Livre pra correr, voar, morrer e nascer
A poesia da juventude transviada e desesperada
A poesia vazia dessa jovem que agora olho
Que agora penso
Dessa jovem de cabeça baixa
Cabelo comprido e meias sujas sentada no banco da escola
A poesia escondida em cada raio de sol que a ilumina
A poesia do infinito
A poesia da vida
A poesia íntima e nunca publicada de que consegui ler uns versos que ela me deixou ver no seu diário
E dizia assim:"Me sinto muito sozinha,por isso amo,por isso estou triste,sei que devia estar feliz
e sei que é por isso que não estou"

A Maçã

Aquele sabor de pôr do sol
A pele suave como a de uma jovem mulher
O gosto doce de lágrima de felicidade...
E sei que cada parte sua é pó de alguma estrela
Cada parte é um de grão de areia do Saara
Te provar é tão vazio, as vezes bom, outras delícia
Como uma vadia te adornas, por tempos, mas quando vem vale á pena
Vale o ingresso, vale a vida
A mesma vida que tanto nos faz sofrer e chorar
É a mesma que nos faz sorrir de extâse em alguns momentos de arrebatamento
Mas nem por isso me perdôo pelos erros que eu podia ter cometido,e sofrido mais do que eu pudesse suportar...
Mas Deus é justo até nas injustiças mais mundanas
Mesmo quando os homicídios mais imundos me comovem
Percebo como tudo aqui é apenas um estágio, um aprendizado
Como uma maçã, que cai e se fere
Se rasga, se destrói
E mesmo assim guarda em si o seu sabor
O seu doce encanto
Seu doce aroma, seu doce sabor.
Quando minha língua a toca,
Orgasmo de insanidade
Tudo é tão completo enquanto te provo
Mas nada é tão perfeito se não acabar
Por isso preciso dar a última mordida
E te tornar parte do meu corpo
Que é apenas pó
Apenas parte de uma maçã qualquer
A maçã do pecado
Da morte
Da vida
Da sabedoria do que é bom e mal
O que não queriam que nós soubessemos
E agora que sabemos, percebo o porque deles terem pecado
E acho que eu também faria o mesmo
Mas ainda não tenho certeza absoluta

Talvez alguma coisa exagerada

Olho em volta e nada do que vejo é verdadeiro ou válido
E a cada segundo sou atropelado por alguma notícia vazia
E nas igrejas vejo os cegos ateus a rezar
Pra que Deus lhes dê mais e mais e mais...
Gente descrente,
Não sabem o mal que fazem
Implorando sempre, sempre a pedir
Enquanto os que não tem, as imploram atenção, dinheiro, chiclete, amor
Seja na sarjeta, seja no outro lado do balcão, seja num hospital, ou em outra encarnação.
Ninguém liga, e nem eu
Tô muito ocupado na minha santa ignorância
A repetir clichês, dos mais variados, dos mais usados, dos mais estrupados
Estou a ler livros velhos e novos
Tudo a mesma coisa sempre
A maldita rotina dos dementes modernos ou antigos
Dos retardados de saia ou terno
Eterna Babaquice, macaquice, inferno.
Só vejo o amor entre as crianças que brigam
Entre os jovens que andam em ziguezague pelas calçadas molhadas em dias chuvosos
Não creio em mim mesmo
Aí é que peco mais
Em saber ser uma anta, uma putinha de um bar limpo e bem arejado,
Em ler mensagens divinas em muros pichados
Sol, vem ao meu encontrome queima, me arde, me faz morrer
Pra renascer e viver nesse palco cheio de palhaços
Por mais uma vez...
Adoro minha mesquinhez
E minha falta de educação
Não sou diferente de ninguém, e quando o sou, faço apenas por conveniência
Pra aparecer um pouco,
Me mostrar, estufar o peito, como um tolo, um bobo, um imbecil
Dizer coisas sem nexo, sem sexo...
É tô de saco cheio, e sei que preciso quebrar as taças,num brinde de alguma festa importante.
É, Preciso ouvir algo,
Talvez alguma coisa exagerada...